27 janeiro 2006

Uma das cartas antigas

Chico, meu velho, tem conversas que só prestam para mesa de bar, tu sabes bem.
Lendo o teu livro - Longe de Manaus -, em um café, como agora, penso em frases que gostaria de te dizer instantaneamente. Escrever um romance sobre o desgarramento das pessoas - ainda agora lia o capítulo da Daniela sobre desencontros amorosos - é uma forma cosmopolita de tratar meus mitos pretéritos.
O gaúcho monarca dos pampas, já não tão orgulhoso, como aparece nesse capítulo do Manaus, é sem dúvida uma figura consolidada, mas encontra seu contraponto naquele que chamamos 'gaudério'. A etimologia poderia nos levar a pensar em 'gaudere', erroneamente. O gaudério é um vaga-mundo, sério e taciturno, de silêncios quase búdicos quebrados pelo chiar da cambona (ou da chaleira) no fogo-de-chão.
Meu avô gaudério, que nunca foi estancieiro, nas décadas de 20 e 30, percorreu a cavalo de Montevidéo a Minas Gerais e volta. Imagino aonde teria ido se pudesse, naquela época, 'encilhar um alazão da Varig', como se diz por aqui.
Don Segungo Sombra, de Guiraldes, poderia encontrar teu Jaime Ramos e teríamos, a exemplo do delegado de Manaus, um encontro de pampa e mar, de solidões verde-azuis. Um abraço, Rogério

Dos dois lados do mar.

Tudo começou quando o Rogério e eu nos encontrámos numa esplanada no princípio do Verão gaúcho. No Bistrô do Margs, penso eu, debaixo de umas árvores frondosas (como vem na literatura) e enquanto esquerdistas fanáticas ou vegetarianas simplórias passavam à nossa volta carregando livros de pós-marxistas mal traduzidos ou panfletos de Emir Sader (dos dois, só eu me irrito com Sader). Daí, depois de um jantar no Copacabana, onde se comeu vitela no forno, se bebeu bastante chope, um whisky final (ou dois), um charuto, nasceu a ideia de escrevermos um blog. O blog teria esta característica: eu escreveria de Portugal, o Rogério, do Brasil, do Rio Grande do Sul. E comentaríamos o que nos apetecesse. Depois, houve outro jantar, numa pizaria lá para os lados de Ipanema mas, de qualquer modo, depois do clube de regatas de Veleiros, em que voltámos ao tema. O Rogério tem um blog e eu também. O que dissermos aqui pode ser lido também lá, se nos apetecer publicar os textos em simultâneo. Temos mais coisas em comum: o Rogério escreve em português do Brasil e eu escrevo em português de Portugal; o Rogério é colorado, um colosso a comentar os jogos do Inter, eu sou portista e, acessoriamente, tricolor gremista; ele é de esquerda, eu não. De resto, eu acho graça aos petistas em crise e o Rogério gosta de Los Hermanos. O Rogério acrescentará o que quiser nos seus posts. Mas escreveremos cartas de ambos os lados do Atlântico, e isso é que interessa, salvo que hoje estaremos os dois juntos, no restaurante Pátio, fumando charutos no final do jantar. Assim vai uma vida inteiramente dedicada à família, à devassidão e à metafísica. [F]